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sábado, 13 de setembro de 2014

"Gay bom é gay no armário"

GAY BOM É GAY NO ARMÁRIO
A ética da 'santa hipocrisia'.
by Dilson Cunha
Nessa cultura judaico-cristã, nossa moral é extremamente relativa. Convenientemente relativa e seletiva. Não é de hoje que a hipocrisia é a lâmina que nos nivela. Melhor que ser um pária assumido é fingir nossas virtudes. Mas isso só vale a partir de mim mesmo. A gente odeia nossos pecados nos outros.
Esse post é um exemplo disso. Ele elege o que deve ser o que chamaríamos de "moral gay". O apóstolo dessa moral é, ninguém mais, ninguém menos que - acreditem! - Clodovil! Sim, o Clô. Estranho, porque, até onde sei, o Clô nunca se assumiu gay. Estranho, não. Justificado!
Justificado?
Sim. Justificado. Porque gay bom é no armário, senão morto. A questão é que vão para o armário não somente os gays, mas toda a sociedade. Armário é um lugar cômodo onde nosso moralismo esconde nossa "roupa suja". 
Então, Clodovil, que viveu uma vida inteira em um armário de vidro, é "o cara", porque o que vale no reino da hipocrisia são nossas confissões. Somos "católicos" não praticantes. Somos "evangélicos" não praticantes. Somos "qualquer-coisa-boa-não-praticante". Mas, e daí? "Somos". Somos o que confessamos ainda que não confessemos o que de fato somos. Nosso confessionário também foi para o armário. Aliás, ele é o próprio armário.
Armário que, etimologicamente, é o lugar onde se guardavam armas. É lá que escondemos nossas munições.
Gay bom é gay hipócrita. Na hipocrisia, todo pecado é tolerado. A hipocrisia é a garantia de que nossa moral será respeitada. A reputação mascara nossa reputaria. Re-putados estando, reputados ficamos. A homossexualidade confessada não será tolerada. Por isso Clodovil está a um passo da canonização. Pois Clodovil, apesar de todas as evidências que dispensava confissões, posava de "gay não praticante".
Os adúlteros praticantes mas não confessantes ficaram horrorizados quando Jesus os chamara de "adúlteros". "Que coisa, não?" - devem ter pensado - "Como ele ousa dizer que somos o que recusamos confessar?"
Ficaram mais horrorizados ainda quando ele resolveu tratar uma adúltera praticante com uma ternura jamais dispensada aos não confessantes. Como perdoar algo tão flagrante?
Nossa religião deveria ter como prática o bem e como confissão nossos pecados. Mas ela é justamemte o contrário. Nossa prática é o pecado, e o bem, apenas nossa confissão e credo. É no credo que nos credenciamos ao posto de "bons mocinhos". E é nosso credo que credencia a nós, os bons, ao céu e a "eles", os maus, ao inferninho. Cruz, credo!
É por isso que os gays praticantes e ativistas perturbam tanto o sossego dos santos e, como as bruxas medievais, eles catalisam tanto ódio. "Nada contra os gays. Só contra serem praticantes confessados e ativistas". Bom mesmo era o Clô que nunca foi nem uma coisa nem outra.
Àquilo que não passa de um direito básico de querer existir se torna uma "exacerbação". Gayzismo, na fala dos homofóbicos praticantes, mas jamais confessantes. Sim, "esses gayzistas querem destruir a família tradicional!" Nao, não é o celibato - tanto o praticado como o não praticado - que pode destruir a família, não! Nem a proibição do uso de preservativos. Nem o adultério nos bastidores dos púlpitos. Não! São esses gayzistas sem coração.
Minha leitura dos evangelhos mostra um Cristo completamente diferente da grande maioria dos cristãos. Qualquer generalização é um erro, por isso não são todos, mas a grande maioria. Os evangelhos me mostram um Cristo 'marginal'. Que, por muito menos que a loucura 'cristã' de nossos dias, esmerilou a moral de ocasião dos religiosos. Sim, pôs em relevo suas idiotices, incoerências, moralismos, proselitismo, sectarismos etc. Nunca pensou em ética de grupo. Nada de "Nós" contra "Eles". Nunca fez uso da força para se fazer ouvido. Nunca se impressionou com os arroubos dos santarrões. Nunca cooptou o Estado em favor da imposição de sua "filosofia". Nunca usou sua família como exemplo, até porque afirmar ter sido ele fruto de uma gravidez do Espírito Santo não seria lá grande exemplo de família.
Não, minha família não depende dos gays, como nunca dependeu dos divorciados, dos poligâmicos, dos amasiados, dos celibatários ou dos mórmons. Nunca!
Quem inventou o 'cristão não praticante' foi o cristianismo, não Cristo. Por isso se vê tantos cristãos não-cristãos e tantos não-cristãos, cristãos. Por isso, o maior cristão do século XX não foi um cristão, mas um hindu: Mahatma Ghandi. Isso dói no ouvido de um cristão confessante, mas não de um praticante. Não doeu no ouvido de Bonhoeffer nem no ouvido de Luther King, ambos praticantes do que confessavam. A Angeline Jolie julgará alguns 'confessantes piedosos'. Os Médicos Sem Fronteiras também. Talvez digam: "Senhor, quando te vimos nu, faminto, refugiado e com ebola? Quando?"
Ao perdoar escandalosamente aquela prostituta, Jesus fez mais que perdoar uma prostituta. Ele fez uma equivalência dolorosa entre puristas e pecadores. Todos se perceberam desgraçadamente 'prostitutas' e hipócritas. Ninguém atirou a primeira pedra. Mas também ninguém a tirou do bolso. Foram embora com o brio ferido, mas não sem o brio. Foram eles e não os "pecadores" que o crucificaram.
É isso que explica como é possível a a alguém receitar amor ao próximo com tanto ódio na veia. É tudo discurso. É o "amor" não praticante, só confessante. Amor virou um credo doutrinário. A ortodoxia venceu a ortopraxia.
A fé cristã foi massivamente abraçada no mundo porque foi mal compreendida. Como observou Baudelaire, geralmente concordamos com aquilo que não compreendemos. Deixe claras suas implicações e você verá a debandada que vai acontecer. O evangelho é um tapa na cara desse cristianismo que aí está. É uma afronta. Mal compreendido fez-se imcompreendido por outros que não o compreenderam pelos motivos certos. Ou seja, recusaram-no por entenderem que aquilo a que chamam de evangelho é uma aberração humana. Essa incompreensão é compreensível.
O post em questão é intelectualmente desonesto, para dizer o mínimo. Evocar o cadavérico 'Clodovil do armário' como modelo de gay tolerável é reduzir o armário a criado-mudo.
Dilson Cunha*
13/09/14


* Dilson Cunha é arquiteto, casado com a engenheira Rosângela Diniz;
 escreve textos contundentes sobre o cotidiano; participa do movimento Pacto pelo Brasil e da equipe que apresenta o programa Papo de Graça (www.vemevetv.com.br). 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Para Alex, com carinho. By Jean Wyllys

O texto abaixo foi escrito por Jean Wyllys. Merece ser lido cada palavra; relata seu sentimento quanto à morte do pequeno Alex, espancado por seu pai para que "tomasse jeito de homem"... a matéria oficial está em O Globo.

Alex beija a barriga da mãe

Joserrí


Para Alex, com carinho - por Jean Wyllys

"Quem me acompanha por aqui sabe que não tenho, por hábito, tratar de minha vida privada nem de minha intimidade. Concentro-me em debater idéias e fatos, sobretudo os ligados ao meu trabalho ou ao meu consumo cultural. Mas hoje vou abrir uma exceção...

Talvez seja a proximidade do aniversário de 40 anos, talvez seja o acúmulo de sentimentos não processados devido ao trabalho árduo dos últimos três anos, mas a verdade é que ando à flor da pele...

Hoje tive uma crise de choro ao ouvir, vinda da lanchonete da esquina, a música "No dia em que eu saí de casa". A letra descreve quase que em detalhes um episódio de minha vida (e, por isso mesmo, as lembranças de minha mãe foram tão inevitáveis quanto as lágrimas):

"No dia em que saí de casa, minha mãe me disse 'filho, vem cá'; passou a mão em meus cabelos; olhou em meus olhos e começou falar: 'por onde você for, eu sigo com meu pensamento sempre, onde estiver; em minhas orações, eu vou pedir a Deus que ilumine os passos seus'.

Eu sei que ela nunca compreendeu os meus motivos de sair de lá, mas ela sabe que, depois que cresce, o filho vira passarinho e quer voar. Eu bem queria continuar ali, mas o destino quis me contrariar... E o olhar de minha mãe na porta, eu deixei chorando a me abençoar!

A minha mãe, naquele dia, me falou do mundo como ele é; parece que ela conhecia cada pedra que eu iria por o pé. E sempre ao lado do meu pai, da pequena cidade, ela jamais saiu... Ela me disse assim: 'meu filho, vá com Deus que este mundo inteiro é seu!".

Depois de ouvir essa música, ainda sentado ao computador para concluir uns textos, li a matéria de O Globo com a história completa do garotinho Alex, morto a pancadas pelo próprio pai para que "tomasse jeito de homem". Alex, natural de Mossoró, RN, fora enviado, pela mãe, ao Rio de Janeiro para viver com o pai, desempregado e envolvido com o tráfico de drogas, porque ela, mãe de outros três filhos (também criados por terceiros), poderia perder a guarda de Alex por não enviá-lo à escola, já que não tinha meios para tal.

Olhei a foto do enterro de Alex e meu coração se apertou ao perceber que não havia quase ninguém lá... Sozinha, aquela semente indefesa esmagada violentamente por sua natural exuberância, não tinha ninguém por ela na despedida dessa vida que lhe foi tão injusta.

Meu coração se partiu e não pude controlar os soluços de choro. Por um instante, vi-me naquele caixão, sem futuro...

Semelhante a Alex, quando criança, eu também não tinha "jeito de homem"; gosta de brincar com as meninas, de roda; de desenhar no chão com palitos de fósforo riscados e pegava, escondido, as bonecas de plástico baratas de minhas primas; semelhante a Alex, eu gostava de cantar e dançar e essa minha diferença me tornava alvo de injúrias e insultos desde que me entendo por gente. Cresci sob apelidos grosseiros e arremedos feitos pelos de fora. Naquela miséria em que eu vivia na infância, trabalhando desde os dez anos de idade nas ruas, o meu "jeitinho" me fazia vulnerável... e eu sabia disso ou, ao menos, intuía; por isso, dediquei-me aos estudos e ao exercício da minha inteligência. Busquei ser um menino admirável na escola e na Igreja para que meus pais não tivessem desculpas para me bater por aquilo que eu não podia mudar em mim. Nem minha mãe amada nem meu pai que já se foi me espancaram por eu ser diferente, mas, ante os insultos e as injúrias de que eu era vítima, ambos me pressionavam com olhares e cobranças e meu pai, em particular, com um distanciamento.

Minha estratégia de sobrevivência deu certo, em casa e na escola. Transformei-me num adolescente inteligente e admirado. No movimento pastoral, aprendi a me levantar contra as injustiças (inclusive contra aquelas de que eu era vítima); aprendi o que era a homossexualidade e que havia outros iguais a mim, o que me levou a passar da vergonha para o orgulho do que era. Cursei, depois de um disputado vestibular, um dos mais cobiçados colégios técnicos da Bahia. E virei orgulho de meus pais, irmãos e de todos os meus familiares e vizinhos que me insultaram. Tanto que, no dia em que saí de casa de vez, rumo a Salvador, os olhos de minha mãe amada diziam: "Meu filho, vá com Deus que esse mundo inteiro é seu". E é!

Mas eu e outros poucos que escapamos dos destinos imperfeitos ainda somos exceções. A regra é ser expulso de casa ou fugir como meio de sobreviver; é descer ao inferno da exclusão social e da falta de oportunidades; ou ter o futuro abortado pela violência doméstica, como aconteceu com o pequeno Alex...

Hoje eu quis, do fundo de meu coração, ter encontrado Alex antes de sua morte violenta e trazê-lo para preto de mim; quis voltar o tempo e livrá-lo da miséria em Mossoró e das mãos de seu algoz; de chamá-lo de "filho"; olhar em seus olhos e dizer "Por onde você for, eu te seguirei com meu pensamento pra te proteger"; quis apresentá-lo à minha mãe para que ela dissesse, a ele, "seu pai era igual a você quando criança e hoje eu tenho muito orgulho dele"...

Não deu, Alex. O destino nos contrariou: não nos quis juntos. Mas, em minhas orações, eu vou pedir a Deus, se é que ele existe mesmo, que ilumine sua alma..."


Jean Wyllys
Deputado Federal
PSOL-RJ


Jean Wyllys e sua mãe


Horas depois, Jean acrescentou à postagem acima, um pequeno acréscimo:

Meus amigos e minhas amigas, obrigado pelas palavras e pelo carinho. Estou mesmo aos pedaços. Cada vez que penso naquele pobre garotinho vindo, de ônibus, ao encontro do pai, enviado pela mãe... Cada vez que penso nos pensamentos que podem ter passado pela sua cabecinha, as esperanças que ele carregava, a idealização do pai que não conhecia; cada vez que penso nisso, meu peito se aperta... Há um buraco de dor em minha alma. Sofro como se essa criança fosse mesmo meu filho; como se eu tivesse responsabilidade por ela... Peço desculpas aos crentes por vacilar quanto a existência de Deus, mas creio que tenho esse direito na medida em que um ser tão frágil é vítima de tanto sofrimento enquanto canalhas enriquecem em nome dEle, de Deus. O Deus em que eu creio há que dar alento ao que chamamos de alma (de Alex) e há que me ajudar a recuperar as forças para seguir. Obrigado!
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